Axia Energia testa soluções contra cortes de renováveis no Nordeste
Por: Nicola Pamplona
Fonte: Folha de S. Paulo
A cerca de uma hora de Petrolina (PE), em meio ao sertão pernambucano, um
cenário futurista chama a atenção. São 247 grandes espelhos em um semicírculo,
todos virados para uma torre de 40 metros que emite um reflexo brilhante no
topo.
Os espelhos se movem automaticamente, sempre em busca de refletir o máximo
de radiação solar possível no alto da torre, onde estão instalados coletores
fotovoltaicos de elevada capacidade, como os usados em satélites ou estações
espaciais.
Conhecida como energia heliotérmica ou energia solar concentrada, a tecnologia
já vem sendo usada por alguns países, mas ainda é inédita no país. A usina de
Petrolina é parte de um projeto de pesquisa e desenvolvimento da Axia.
A companhia está direcionando para o vale do rio São Francisco parte dos
recursos obrigatórios de programa de pesquisa coordenado pela Aneel (Agência
Nacional de Energia Elétrica). O objetivo é fomentar um hub de inovação na
região.
Um dos principais desafios é encontrar soluções que minimizem os cortes de
energia renovável, diz o gerente de Pesquisa e Desenvolvimento em Renováveis
da Axia, Rodrigo Vilaça. Os cortes geram prejuízos e desincentivam investimentos
no país.
Em 2025, cerca de 20% da capacidade de geração solar e eólica do país sofreram
cortes involuntários pelo ONS, motivados pelo excesso de energia durante os
períodos de maior insolação. O prejuízo para as geradoras foi de R$ 6,5 bilhões,
segundo a consultoria Volt Robotics.
A usina heliotérmica, além de testar tecnologia que melhora a captação de
energia solar, também é testada com esse objetivo: ela produz calor, que pode
ser armazenado para diversos fins, inclusive a geração de eletricidade durante a
noite.
A unidade piloto tem capacidade instalada de 1 GW (gigawatt) de energia solar,
suficiente para abastecer cerca de mil residências e 2,2 GW de energia térmica,
que pode ser usada também em indústrias que demandam calor, como a
produção de frutas da região.
O projeto usa tecnologia desenvolvida na Austrália pela startup RayGen, que
elimina a necessidade do uso de sal fundido para manter a energia térmica e
pode reduzir custos. É a segunda planta desse tipo em teste no mundo.
Segundo a Irena (Associação Internacional de Energias Renováveis), o mundo
tinha ao fim de 2024 7,5 GW instalados em usinas que concentram o calor do sol,
de diferentes tecnologias, a maior parte em países da União Europeia.
Energia Limpa
Na vizinha Casa Nova (BA), a Axia implantou um sistema elétrico em miniatura,
com geração solar e eólica, baterias para armazenar energia, e simuladores de
grandes consumidores, como indústrias, mineração de bitcoin e data centers.
O objetivo ali é simular como o sistema se comporta com a entrada de grandes
consumidores, como os próprios data centers ou fábricas de hidrogênio verde,
que hoje enfrentam dificuldades de acesso à rede de energia do país.
Esses consumidores são vistos como essenciais para absorver o excesso de
energia renovável no país e minimizar a necessidade de cortes de energia por
falta de demanda. Mas o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) tem
dificultado a autorização de conexão à rede.
Um projeto médio de hidrogênio verde demanda uma carga de cerca de 1,5 GW
(gigawatts) médios, quase o equivalente à capacidade da usina nuclear Angra 2.
Estudos dinâmicos feitos pelo operador indicam que, nas condições atuais, os
projetos podem gerar riscos à rede de transmissão.
O minissistema elétrico já contribuiu com a formação de 15 mestres e 5 doutores
e no desenvolvimento de softwares específicos e está conectado a parques
eólicos da Axia que sofrem com os cortes involuntários de geração.
"Sempre que eu venho aqui, dá uma tristeza", diz Vilaça, apontando para torres
eólicas do projeto, paradas por determinação do ONS nos períodos de maior
geração solar. "Quando chego pela manhã, elas estão funcionando. Na hora do
almoço, já estão paradas".